sábado, 22 de agosto de 2015




Para dar seguimento a uma primeira parte na qual as atenções incidiram sobre a sua passagem pelo Futebol de Praia, modalidade na qual vai defendendo as redes de Portugal na Fase Final da Liga Europeia, e a actualidade da sua carreira no futebol de onze que terá seguimento no Goa da Liga indiana, a 2ª parte da entrevista concedida por Elinton Andrade ao NOVA ACADEMIA DE TALENTOS esmiúça agora a carreira do veterano guarda-redes.

Desde o início de carreira até à actualidade, cada etapa foi escalpelizada pelo NAT e Andrade, que acedeu a caracterizar cada momento do seu percurso, dando o luso-brasileiro a conhecer vários pormenores que não eram até à data do conhecimento público. 


Antes de começar o Mundial chegou a visitar o Oriental, clube que disputa a Segunda Liga. Chegou a ser uma possibilidade representar este clube na próxima época?


Não, nenhuma possibilidade, o Oriental foi para apresentar o projecto ao Bé Martins e o Léo Martins, que não esteve presente porque ainda estava no Brasil mas eles têm o desejo de voltar aos relvados e eu queria aproveitar porque sempre gostei muito de ajudar as pessoas e o facto de ter alguns contactos e conhecer algumas pessoas fizeram com que chegasse ao Oriental, no caso o Jorge Alves, presidente da Selecção Nacional de Futvólei.

Ele é que me deu esse contacto, fomos ter com o presidente, a conversa foi feita só que o problema esteve no facto de não ser muito certo não poderiam largar a hipótese de largar a Selecção portuguesa. Queiram ou não queiram, eles precisam de ganhar o seu dinheiro e o Oriental não pôde oferecer a segurança a nível de contrato, seria um treino para que fossem observados, então dei a minha opinião e disse que não seria inteligente fazê-lo. 

Quem sabe depois da Estónia, tudo bem que aí já a época começou, mas se as portas ainda estiverem abertas, se o Bê Martins ou o Léo Martins não poderão representar o clube, assinar contrato e ficar por aí. A ideia deles, não estou a fazer-lhes propaganda mas a ideia é que fiquem na Liga portuguesa.

No meu caso não, na verdade nunca digas nunca mas não penso nisso ainda porque tenho ainda as minhas coisas no Brasil, a minha esposa, o meu filho, a minha família e não é fácil largar o sítio onde se vive para nos mudarmos para outro local, por mais maravilhoso que Portugal seja, sem saber o que me iriam propor. 

Só que conheço a realidade e sei exactamente onde podem eles chegar e fica um pouco longe da minha, então por mais que sempre ajude os clubes tenho de pensar um pouquinho em mim também, não posso morar nem ficar um ano aí sem ter algo que me possa dar tranquilidade como a do Brasil onde moro.


Antes disso, durante a sua estada no Marseille chegou a ser falado para alguns clubes em Portugal. Porque não se concretizou?

Quando estava no Olympique não se concretizaram as propostas desses clubes pois era uma situação complicada sair de Marselha para ir para Portugal na época por mais que coloque o dinheiro em segundo plano e como consequência de um bom trabalho era uma diferença muito grande e eu tinha um contrato muito bom no Olympique, as pessoas eram muito boas e em Portugal não seria dessa maneira embora tivesse sido contactado para jogar e em Marselha eu jogasse mais na Taça e na Taça da Liga.

Após isso houve sondagens de empresários que falaram com alguns clubes como o Penafiel, o Moreirense, houve essas situações que não sei se são verdade pois não chegaram directamente a mim, eram apenas empresários a falar e a tentar e não sei até que ponto seria verdade.




Teve uma longa carreira, três anos no total, no Marseille. Quais são as principais memórias?
As principais memórias são os títulos, foi demais, três anos sensacionais, as pessoas que conheci, só  jogadores com uma carreira brilhante e um treinador brilhante e sensacional como o Didier Deschamps, um título de campeão francês, três Taças da Liga, duas Supertaças, ter tido a chance de jogar uma Liga dos Campeões…



Participei em todas, no caso foram três mas tive a hipótese de jogar uns quartos-de-final contra o Bayern de Munique, joguei a Taça da Liga em que fomos campeões…Várias memórias e lembranças que ficarão na minha memória para o resto da vida.


Lamenta o facto de apesar dos quatro títulos conquistados tenha realizado poucos encontros oficiais em três épocas?



Impossível lamentar até porque fui o único jogador que nesses três anos esteve em todos os jogos – todos- ou como titular ou como suplente do Mandanda, foram alguns jogos, mas enfim, desses jogos todos foram de título na sua maior parte na Taça da Liga em que fomos tricampeões, os jogos em que participei no Campeonato foram de uma importância muito grande para somar os três pontos e manter a liderança para ser campeão francês.



O jogo mágico foi contra o Bayern de Munique para a Liga dos Campeões, não tenho nada que lamentar da minha passagem por lá, se for a Marselha e perguntar algo sobre o Andrade tenho até hoje uma bandeira guardada que os adeptos fizeram para mim, acho que de tudo o que lá me entreguei, treinando, jogando, apoiando, foi uma relação muito boa e ainda hoje os adeptos me escrevem, estão sempre em contacto comigo pelo carinho que temos entre nós.


A experiência de ter conquistado uma Ligue 1 e três Taças da Liga de França ajudou a que pudesse ser uma referência para alguns dos companheiros na Selecção neste Mundial?



Foram uma Liga, três Taças da Liga e duas Supertaças, são títulos que não me podem tirar (risos). Com certeza, não só a experiência como também essa energia positiva de ter ganho essas coisas, de poder levar esse espírito bom, é uma boa experiência que passo para os companheiros, com certeza que ajudou. 


Estreou-se como sénior no Centro de Futebol Zico do Rio de Janeiro. Começou a lidar com Zico nessa altura?



Comecei no América do Rio de Janeiro, de 94 até 98, tive a felicidade de ir para o Centro de Futebol do Zico, um craque como ele, Andrade e Adílio como treinadores e o Zico como presidente e foi onde a minha vida como jogador recebeu um sonho e esperança e aí começou o relacionamento com o Zico e pude mostrar o meu trabalho, não só a treinar como a jogar, como pessoa, carácter, enfim… Há muito tempo que estamos juntos e hoje posso dizer que somos amigos.


Seguiram-se o Centro de Futebol Zico em Distrito Federal, Bangu e Rio Claro. Nesta altura chegou a duvidar de que seria possível chegar aos grandes palcos?

Nunca duvidei de nada, acreditei e acredito sempre, no CFZ de Brasília fomos campeões invictos e de lá fui para o Flamengo, onde era suplente do Julio César, no Rio Claro fui para jogar pois era novo e no Flamengo não estava a jogar e logo em seguida fui para o Bangu em 2004 jogar o Carioca em que fiquei entre os três melhores guarda redes da competição, indo então para o Fluminense e em seguida para o Vasco da Gama.

No Vasco da Gama foi também pouco utilizado, não foi? Foi por essa razão que optou por viajar para Itália?
Fiquei pouco no clube, joguei 4 jogos e fui embora pois não aceitei renovar o meu contrato e no caso o Romário tinha-me levado. E aí começa a minha história e muito longa pois fui em busca do meu passaporte português.

Tratou do passaporte português para viajar para Itália? A sua ligação familiar a Portugal prende-se com o seu avô, não é? Já conhecia o país?

Não sei se era pra viajar para Itália mas era pra jogar na Europa pois o meu empresário é italiano e talvez por isso a facilidade de ir para Itália e na verdade para mais sendo neto de português isso facilitou a minha cidadania, o que ajudou mesmo foi o facto da Federação de Futvólei Portuguesa com Jorge Alves ter-me convocado para o Mundial na Suíça e com isso o meu nome foi para o Diário da República. 



O meu avô na verdade eu nem conheci e hoje o que me prende a Portugal é a família que ganhei em Vieira do Minho, na Quinta de Calvelos, que quero do meu lado pelo resto da vida e antes disso não conhecia Portugal.


Por que motivo foi tão curta a sua passagem pelo Ascoli de Itália? Foi difícil a adaptação?

Adaptação fácil demais e para o treinador de guarda-redes ele via-me como uma promessa no futebol italiano, o problema é que o diretor que me levou juntamente com o meu empresário saiu do clube e o que entrou optou por não me contratar pois eu não tinha o passaporte europeu ainda em mãos.

Considera determinante o ano no Moto Club e no Duque de Caxias para regressar à Europa para desta feita ser bem-sucedido?

Determinante foi o que o destino reservou para mim pois não fui para Europa por ter jogado bem no Moto Clube ou no Duque de Caxias, ninguém observa esses clubes, só Deus e penso que esses clubes serviram para eu voltar a jogar, ter o passaporte em mãos e eles queriam contrato de um ano e eu não aceitei pois acreditava que no meio do ano, no caso em 2007, eu iria para a Europa.

A experiência no Rapid Bucareste foi a que ambicionava para entrar numa porta mais ambiciosa como a do 
Marseille?



Quanto à ambição não pois sempre fui ambicioso, claro que estar no Rapid, ter jogado uma Liga Europa ajudou a estar perto dessas grandes potências, mas a minha ida para o Marseille foi mais uma vez o destino a reservar-me algo por tudo o que trabalhei e no momento certo eles precisaram de mim pois dificilmente eles olham para o campeonato romeno.


Antes de partir para o Chipre chegou a ser falada a sua transferência para o Náutico. O que falhou? 

Eu fui para o Náutico e inclusive tenho um processo na justiça contra eles por não me pagarem nada ,e logo em seguida apareceu o Chipre e eu não pensei duas vezes, aceitei pois o meu desejo era lá jogar e voltar para a Europa.

No Chipre reforçou o Ermis Aradippou. Fica satisfeito com essa experiência?



Muito, uma equipa que tinha subido da segunda divisão e que na primeira fez um grande campeonato, conheci pessoas sensacionais e não fiquei até ao final pois precisava de ficar perto do meu filho e tomei a decisão a meio do campeonato, no caso em Dezembro, isso de voltar foi em 2013.


Já se referiu aos maus momentos que passou no regresso ao Brasil, altura em que representou o Duque de Caxias e o Uberlândia. Como correu nesses clubes?



Foi quando voltei do Chipre, acertei imediatamente para jogar o campeonato carioca pelo Duque de Caxias onde fiquei entre os três melhores guarda-redes do campeonato mas era um clube pequeno com mentalidade pequena principalmente por alguns que o dirigiam e no Mundial 2014 decidi rescindir o meu contrato e escolher para onde ir, nada interessante apareceu e aceitei o Flamengo em setembro de 2014 em futebol de praia.



2015 começou e eu esperava ir para os EUA e não se concretizou, não aceitei nenhum clube nos Estaduais e quando já estava tranquilo em não ir para o campo pois iria representar a seleção portuguesa na praia apareceu o Uberlândia para um hexagonal final com uma proposta interessante, aceitei.



Chegado lá não era aquilo que me propuseram e achei falta de caráter e respeito de alguns dirigentes e o meu coração já estava em Portugal, rescindi na hora e fui para o meu primeiro estágio na seleção, final de Abril logo marcando 2 golos em 2 jogos (risos).


Por conta disso, admite não voltar a representar outro clube brasileiro de futebol de 11?



Nunca diga nunca mas representar equipa de menor expressão no Brasil não pretendo mais representar e trabalho muito para que não precise e depois da Índia a minha meta é jogar a Liga portuguesa.


falou deste tema e do facto de ser um grande jogador de futvolei, modalidade na qual também representa Portugal. Vai continuar a competir nesse desporto?



Não é prioridade, quando joguei foi pelo fato de estar de férias ou apresentar-me no futebol 11 depois do evento mas aqui no Rio de Janeiro jogo quase todos os dias.


Foi essa experiência no futvólei que fez com que tenha a facilidade de remate e no jogo de pés que demonstrou no Mundial? Considera que esse é um aspecto que o separou dos restantes guardiães na prova?



Não pois no futvolei eu não chuto, a técnica vem do futvolei, de jogar controlo de bola com a minha esposa e de ter 21 anos de carreira praticando desportos e técnicas diferentes.


Fora do campo, foi comparado a David Beckham por ser nesta Selecção aquele que parecia ter mais cuidados com o visual e uma esposa muito bonita. É algo a que se encontra habituado nos clubes por que passa?



(Risos) Normalmente brincam com isso sim ,em todos os clubes mas não por ser parecido com Beckham até porque não sou mas sim pela vaidade e preocupação com a imagem, sim.


Cruzou-se com muitos craques na Selecção e nos clubes em que passou. Que jogador mais o impressionou?
Dois: Lucho Gonzalez e Romário.