segunda-feira, 27 de outubro de 2014




Como um dos treinadores mais experientes da Segunda Liga e líder de um dos clubes que se candidata aos primeiros postos dessa classificação, assim como se mantém em actividade também na Taça de Portugal, Luís Norton de Matos acredita deter todas as condições para levar o Desportivo de Chaves a bom porto.

Junto da imprensa nacional, Norton de Matos respondeu em exclusivo a questões deixadas pelo NOVA ACADEMIA DE TALENTOS. Actualmente em bom plano com uma vitória fora de portas, o treinador analisava uma fase de menor fulgor da turma flaviense numa competição que desde cedo tem tido bastantes focos de interesse.

Na mais recente visita a Lisboa, o Desportivo de Chaves empatou com o Oriental. Qual é a sua opinião sobre esse jogo?

Ora bem, esse jogo foi marcado por uma grande atitude da equipa do Oriental, um campo muito difícil no qual tivemos dificuldades certas por termos de adaptar-nos á agressividade no bom sentido do Oriental e ao vento na primeira parte e também o estado do relvado. Depois, foi um jogo de luta e raça, muito trabalho, não foi bem jogado, mas conquistar um ponto da forma como aconteceu acho que é positivo.

Pensa que o Chaves enquanto candidato deve valer mais? Até essa altura faltava à equipa ‘dar um ar de sua graça’ por estar recheada de excelentes valores…

O Manchester United também devia jogar mais do que aquilo que joga, o Mónaco também. Isto no futebol não é Playstation, as pessoas quando pensam têm de ver o copo meio vazio ou meio cheio, quem vir o copo meio vazio tem um raciocínio desses, quem vir o meio cheio verá que em dez jogos perdemos um que infelizmente nos deixou muitas marcas físicas e sobretudo psíquicas num jogo em que ficou claramente provado um erro gravíssmo de arbitragem.

Isso penalizou-nos de uma maneira forte e não somos máquinas, as pessoas não são máquinas, não conseguimos reagir como queríamos mas não se pode apontar nada aos jogadores e à sua atitude num jogo em que há um futebol muito directo e uma equipa bem constituída fisicamente - a equipa do Oriental empatou com o Benfica B, por exemplo, e eliminou o Farense da Taça de Portugal.

Quem não conheça a Segunda Liga faz juízos de valor que não se podem ter porque cada jogo é um jogo e uma equipa que está muito bem perde 7-0, há uma equipa que ganha em nossa casa e depois perde em casa, o factor casa por vezes é importante, noutras não e cada jogo tem uma História diferente e é certo que a equipa do Chaves podia ter jogado mais mas é preciso adaptar-se às condições e muitas vezes não o conseguimos fazer nas que nos foram criadas.

No caso do Oriental, o adversário obviamente não tem culpa e fez tudo para jogar e ganhar na base da raça, vontade e saber que o favoritismo era nosso, muitas vezes temos de ter capacidade para saber sofrer e pontuar fora é sempre bom desde que não se percam pontos em casa e nesta edição finalizámos sete jogos em 21 dias, a seguir um pequeno interregno no qual se procura recomeçar o ciclo seguinte.

É uma média boa para atingir os objectivos mas mesmo assim estou de acordo com as queixas com as nossas exibições mas nem sempre se consegue jogar bem e para jogar muito bem num campo daqueles arriscamo-nos a perder.

Estivemos perto de marcar em muitos momentos e para contrariar esse futebol directo perante uma equipa composta por todos os jogadores com mais de 1,80 metros tivemos problemas e de adaptar-nos nesse sentido. Por isso, esse ponto, independentemente de se ter jogado bem ou mal, é bem conseguido e faz-nos falta.

Nesse jogo em concreto o Chaves não rematou por uma única vez de forma enquadrada à baliza do Oriental, e o seu guarda-redes Mota poderia ter sido um espectador…

É verdade, mas isso foi mérito da equipa do Oriental, não podemos em 14 jogos marcar em todos eles seguidos e tivemos dois seguidos em que não marcámos. Ainda no encontro anterior tivemos mais oportunidades de golo feito que o adversário e perdemos 3-0, uma mentira completa no que diz respeito a construção de jogo ofensivo. Em Marvila nenhum dos alas funcionou e fora de casa quando isso acontece é muito difícil conseguir-se criar golos.

Foi um ponto para uma equipa que em termos ofensivos foi nula mas não por falta de jogadores ofensivos, houve mérito da equipa do Oriental mas o Chaves não teve arte e engenho para construir as jogadas de perigo que costuma, foi inocente nesse aspecto, queria lá chegar mas não conseguiu e contra factos não há argumentos.

Foi um jogo pobre do ponto de vista ofensivo e isso foi bastante mau mas em termos defensivos a equipa lutou bastante e foi também eficaz, portanto vamos obviamente tirar ilações desse jogo que veio manchar em termos exibicionais aquilo que é a nossa eficácia e tudo aquilo que vínhamos fazendo nos seis, sete jogos anteriores.

De qualquer forma, como lhe disse não somos máquinas e mesmo estando precavidos para o adversário e essa agressividade de jogo não conseguimos, portanto há aí demérito nosso mas também mérito para o adversário.

Tendo em conta o trabalho que o Oriental conseguiu fazer, considera que o seu amigo pessoal João Barbosa possui qualidade e competência para manter a sua equipa na Segunda Liga?

Conheço o Oriental, o João Barbosa e o seu trabalho, há um facto que para mim é extremamente positivo e que revela a inteligência das pessoas que é terem um treinador há três anos, o que dá estabilidade ao processo de jogo, garanto-lhe que se estivesse três anos na mesma equipa também teria uma equipa mais construída e sólida em termos de processos de jogo, o facto dessa equipa ter subido e estar a fazer um bom Campeonato não me surpreende.

Aliás, a equipa do Oriental tem um bom comportamento em casa e lá empatou a zero com o Benfica B, ganhou ao Beira-Mar… é uma equipa como qualquer outra nesta Segunda Liga, e qualquer equipa nesta prova consegue ganhar ao último ou ao primeiro de forma inesperada. Quem conhece este Campeonato sabe-o e por isso é que lhe digo isto, depende da forma como se entra no jogo e se marca um golo ou não se marca, de muitos factores.

Portanto, acho que o Oriental com este treinador e a paciência que tem sido revelada na construção nestes últimos três anos de uma equipa com esta estabilidade tem tudo para poder ficar na Segunda Liga e confirmar esse objectivo.

Tem um campo no qual há poucas facilidades para as equipas que vêm aqui jogar e sobretudo quando uma equipa que é considerada favorita e está acima na tabela classificativa e tem outras ambições obviamente que sabemos que esta equipa faz ’das tripas coração’ em cada jogo e é capaz de ter mais dificuldades a jogar perante um Atlético do que contra um Chaves ou um União da Madeira, equipa que vem com um estatuto que obriga os jogadores a ter uma motivação extra.

Achei que a equipa tinha muitos processos trabalhados, nas bolas paradas é uma equipa que pode fazer mal, aliás o último lance do jogo contra nós era algo para o qual estávamos precavidos porque o Oriental fá-lo muitas vezes mas felizmente que o nosso guarda-redes fez uma grande defesa, e isso revela que há trabalho e uma grande competência e é salutar ver-se isso, uma equipa que trabalha o jogo todo.

No processo de construção de jogo, entrada dos laterais, na lateral direita o Tiago Rosa faz falta porque é um jogador importante em termos ofensivos, e vê-se que há dedo do treinador por trás. Enfim, não vou estar a fazer votos por ninguém no futebol porque isto é uma luta para todos mas acho que o Oriental tem tudo para se poder manter.

Olhando para a ficha de jogo percebe-se que vários jogadores do Desp. Chaves já haviam sido orientados por si anteriormente no Benfica B ou na sua estada em África, assim como outros clubes. Acha esse aspecto determinante para a sua etapa em Chaves?

Pode ter sido importante para a construção do plantel, acho que houve um conjunto de circunstâncias que contribuiu para que isso acontecesse, há nomeadamente dois jogadores, o Luciano e o João Mário, que começaram comigo em África e todos os treinadores sem excepção têm tendência para ter jogadores que conheçam bem dos pontos de vista futebolístico e humano, depois há o Raphael Guzzo que é natural de Chaves e um jogador que conheço muito bem.

Portanto, são jogadores que me trazem em termos qualitativos o que penso ser bom para a equipa, há uma coincidência talvez no facto de eu ter vindo para Chaves e eles terem vindo, se fosse outro treinador talvez não tivessem vindo estes jogadores, há uma tendência sempre que um treinador sai de uma equipa para outra de ir buscar jogadores com quem já trabalhou anteriormente porque sabe as respostas que lhe vão dar e por isso acho que é um pouco normal.

Tendo em conta o seu currículo e a própria dimensão histórica do Chaves, considera que a equipa está suficientemente apetrechada para discutir os lugares cimeiros ou até mesmo a subida?

Acho que este Campeonato tem facilmente oito, nove equipas que podem lutar pela subida, se perguntar a qualquer analista de futebol, treinador ou expert, se neste momento acreditava que o Freamunde a esta altura teria avanço sobre uma e outra equipa e que o Oliveirense chegou a estar em segundo…

Poucos acreditariam.

Portanto, as surpresas acontecem e este Campeonato é muito competitivo, é preciso muita paciência, aliás penso que esta palavra é a mais correcta, pois é tão longo que faz lembrar uma corrida de ciclismo, quando um ciclista tem uma fuga de 15 minutos e depois chega a montanha e entra em colapso, aqui o que interessa é regularidade e estabilidade no trabalho do grupo e saber para onde se vai, é evidente que o importante são as vitórias por causa dos três pontos.

Prefiro ter duas vitórias e uma derrota do que três empates, da mais pontos, mas o que lhe digo é que acho que poderemos estar nas últimas dez jornadas naquele lote de equipas, neste momento ainda está tudo muito apertado e ainda vai haver lesões, castigos, Inverno, equipas com dificuldades em treinar face ao tempo e não haver campo de treino para trabalhar.

Teremos de adaptar tudo isto, castigos, lesões, e acho que temos um plantel com número em quantidade e qualidade que dará para pelo menos até Dezembro para estarmos no pelotão da frente, não interessa se em primeiro, se em terceiro, se em quinto, mas pontualmente para a qualquer altura nos agarramos à posição de cima. Muito obrigado.